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Desenvolvimento Sustentável: |
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Princípios
Éticos para um Efetivo Fazer Acontecer
*Por Oscar Motomura |
Como especialista em gestão e
governança, tenho focado minha energia nestes últimos anos no
que considero o fator crítico que define a saúde de
organizações tanto públicas como privadas: a eficácia em fazer
acontecer. Por isso resolvi – ao preparar esta apresentação –
escolher um foco para os princípios éticos relativos ao
desenvolvimento sustentável. Esse foco pode ser definido
através da seguinte questão-chave:
-
Quais as áreas mais sutis,
menos óbvias da ética que deveriam receber maior atenção por
parte de todos se quisermos ser mais eficazes na transformação
de modelos não-sustentáveis de desenvolvimento para outros não
só de excepcional grau de sustentabilidade, mas até de
evolução/melhoria contínua?
Para ser prático, ao
trabalhar esse foco resolvi ir diretamente aos princípios, em
vez de teorizar ou comentar o tema. Obviamente, esses
princípios são apenas sugestões e estímulos para diálogos e
debates, não só quanto ao seu conteúdo como também quanto à
forma de expressá-los. Podem e devem ser aperfeiçoados, a
partir da contribuição de todos.
Ao redigir esses princípios e
os comentários que os contextualizam, tentei também adotar a
perspectiva de líderes-estadistas que representem os países da
América Latina e do Caribe. Mas acredito que os princípios que
proponho sejam fundamentalmente universais.
Princípio 1: Ética da
Ação Efetiva
É a ética do movimento.
Desenvolvimento sustentável só se torna realidade pela ação. O
princípio aqui é que todas as deliberações sobre o assunto
deverão sempre ir até o estágio da ação efetiva em todas as
áreas que condicionam a excelência do resultado final (em
consonância com o princípio ecológico da interdependência e do
sistêmico). Nenhuma deliberação sobre desenvolvimento
sustentável ficará, portanto, tão somente no nível de
intenções teóricas, que não contemplem soluções criativas,
eficazes, que levem à superação de todas as barreiras a um
efetivo fazer acontecer.
A premissa aqui é que já
dispomos de conhecimento suficiente, teorias suficientemente
fundamentadas, evidências mais que razoáveis e tecnologias
apropriadas para tomar todas as decisões necessárias para
colocar nosso desenvolvimento na direção de uma
sustentabilidade muito melhor do que a que temos hoje. Nosso
problema hoje está na falta de mais ações pragmáticas e
velocidade no fazer acontecer. Não é ético continuar
procrastinando as ações que já sabemos ser necessárias. A cada
dia de adiamento é possível calcular os impactos sobre a
sustentabilidade e os problemas que se geram a médio e longo
prazos.
Princípio 2: Ética da
Intenção-Verdade
É a ética da não-manipulação,
da ausência de conflito de interesses, da ausência do jogo de
aparências e do autoengano. O princípio aqui é que todas as
deliberações sobre desenvolvimento sustentável deverão ser
feitas com base na intenção de assegurar o melhor para tudo e
para todos no planeta de forma igualitária e justa, da forma
mais transparente possível e sempre com real intenção de fazer
o necessário acontecer (cumprir efetivamente o que se
combina).
Nenhuma deliberação sobre
desenvolvimento sustentável portanto deverá acontecer em
ambientes de pressão (de lobistas ou de grupos de interesse
segmentado) que conduzam a problemas de conflito de interesses
e que desviem o processo decisório dos propósitos nobres e
universais inerentes ao próprio conceito de sustentabilidade.
A premissa aqui é que em
geral vivemos um ambiente de auto-engano e de inversão de
valores, em que passamos a achar “normal” o jogo das promessas
que sabemos que não serão cumpridas, dos acordos de
bastidores, das intenções ocultas por trás de propostas
aparentemente bem intencionadas etc., tudo isso afetando a
sustentabilidade de nossa evolução. Obviamente nada disso é
ético em todos os sentidos. Menos ético ainda é fechar os
olhos para essa realidade e nada fazer a respeito, tornando
permanente esse jogo de ilusões. A premissa aqui é que todo
esse quadro é reversível e essa reversão é absolutamente
necessária para fazer com que o desenvolvimento sustentável se
torne efetiva realidade.
Princípio 3: Ética do
Respeito Genuíno
É a ética do respeito
verdadeiro – e não o protocolar, o institucionalizado, o
genérico – a cada ser vivo do planeta. Desenvolvimento
sustentável só acontece se esse respeito genuíno estiver
presente na sociedade como um todo. O princípio aqui é que
todas as deliberações que afetam a sustentabilidade da
evolução devam ser feitas por pessoas que têm uma
“sensibilidade vivida” em relação às pessoas que estão sendo
afetadas (por essas deliberações) e os seres vivos envolvidos.
O princípio aqui é que essa sensibilidade não pode estar
baseada apenas em relatórios, estatísticas e números. O
fundamental aqui é que essas pessoas tenham uma experiência
direta, “olho no olho”, presencial para chegar ao nível de
respeito necessário (assim evitando decisões no “piloto
automático”). Nenhuma deliberação sobre desenvolvimento
sustentável será feita por pessoas de gabinete, sem essa
experiência direta.
A premissa aqui é que quando
as deliberações se tornam “institucionais” nas duas pontas (é
um “órgão” que delibera e não pessoas; é um agrupamento “x”
que está do outro lado e não pessoas), elas perdem o senso de
humanidade, se “coisificam”. O mesmo pode acontecer em relação
a todos os seres vivos que perdem sua individualidade e se
tornam até meras estatísticas. Não é ético “coisificar” seres
vivos, tornando-os não-dignos de respeito genuíno, o tipo de
respeito que temos em relação às pessoas próximas, aos nossos
animais, às nossas plantas.
Princípio 4: Ética do
Conhecimento
É a ética do saber o que está
fazendo. É a ética do tomar decisões somente em áreas nas
quais se possui o conhecimento necessário. É ter consciência
do risco do deliberar/ decidir sem esse conhecimento.
O princípio aqui é que todas
as deliberações que afetam a sustentabilidade do
desenvolvimento sejam feitas por pessoas ecologicamente
alfabetizadas, pessoas que têm uma compreensão adequada de
como os sistemas da Terra funcionam, de como os princípios que
regem a Natureza funcionam, de como o “sistêmico” no espaço e
no tempo funcionam. Nenhuma deliberação sobre o assunto deverá
portanto acontecer em qualquer foro se as pessoas envolvidas
não estiverem ecologicamente alfabetizadas.
A premissa aqui é que muitos
problemas de sustentabilidade ocorrem no mundo todo por mera
ignorância dos tomadores de decisão, dos que implantam as
decisões etc. A premissa é que nossos líderes e nossos
políticos precisam ser urgentemente reeducados no básico que
afeta a sustentabilidade de nosso desenvolvimento integrado.
Não é ético decidir sem conhecimento de causa. Não é ético
tentar supersimplificar as questões críticas sobre
sustentabilidade usando analogias do mundo mecânico, linear,
reducionista.
A premissa aqui também é que
na medida em que a população como um todo se alfabetizar
ecologicamente, o desenvolvimento sustentável tenderá a
ocorrer de forma natural, a partir de movimentos de baixo para
cima. Será o ideal da sociedade que toma conta de si,
inclusive em tudo que se refira à sustentabilidade do
desenvolvimento.
Princípio 5: Ética da
Integração do Tempo
É a ética que honra o passado
junto com o presente e o futuro. O princípio aqui é que as
deliberações que afetam a sustentabilidade do desenvolvimento
não devem partir simplesmente do momento presente, ignorando
as decisões tomadas no passado que produziram o estado atual.
Isso significa que também é sempre essencial honrar o
sistêmico no tempo e enxergar o todo maior. Nenhuma
deliberação sobre sustentabilidade deverá acontecer sem levar
em conta o sistêmico no tempo e no espaço, ou seja, a questão
dos legados recebidos e os que deixaremos para as futuras
gerações.
A premissa aqui é que em
muitas partes do planeta os ativos naturais foram depletados
em troca de um tipo de desenvolvimento não-sustentável. Um
desenvolvimento não-sustentável mas capaz de gerar outros
ativos, como tecnologia e capital. Ao ver o todo – em âmbito
mundial – vemos o efeito desse desenvolvimento desequilibrado,
que produziu inclusive bolsões de pobreza afetando bilhões de
pessoas. Muitos países da América Latina sofreram o efeito
desse desequilíbrio mas, por outro lado, estão hoje em
melhores condições – em termos de ativos ecológicos – do que
os países “desenvolvidos”. O exemplo do Brasil, um dos países
mais ricos do mundo em ativos naturais, é típico. Honrar a
integração no tempo é dar o devido valor a esses ativos
naturais, que hoje são fundamentais ao planeta como um todo.
Não é ético que os países que
criaram o desenvolvimento não-sustentável demandem a simples
“preservação” do ativos naturais dos países em
desenvolvimento. Essa preservação agora tem valor para todos.
É hora de assegurar que todos que precisam desses ativos
paguem pela preservação. E o valor não será baixo. Muito ao
contrário, será algo bastante significativo na medida em que
neste momento esses ativos são de um valor inestimável para a
humanidade, ou seja, “não tem preço que pague…”. A premissa
aqui, mais uma vez, é que para construir um futuro que seja o
melhor para todos e para o todo (chave para a sustentabilidade)
é preciso reconhecer o tipo de legado recebido e o que se
pretende deixar – sempre levando em conta o sistêmico e o
interdependente. Em suma, o todo.
Princípio 6: Ética da
Restauração
É a ética do reconhecimento
de erros e a humildade de consertá-los. O princípio aqui é que
todos os erros cometidos no mundo todo em relação à questão da
sustentabilidade podem ser corrigidos. Parte dessa correção é
simplesmente deixar de cometer os mesmos erros e a Natureza
faz a sua parte. Parte é representada por ações de
recuperação/restauração. É criar condições para a restauração
das florestas tropicais, despoluir rios, resgatar animais em
extinção, recuperar as nascentes e despoluí-las. É claro que
parte é irrecuperável. Mas grande parte pode e deve ser
resgatada. É o ato de consertar e deixar “pronto para uso”
para as futuras gerações.
A premissa aqui é que a
restauração vale a pena e deve ser um esforço sistêmico,
global, integrado, na medida em que seja do interesse de
todos. O investimento para restauração é alto? Pode ser, mas
qual é o custo de oportunidade aqui? Que tipo de problemas
graves no futuro estaremos evitando para o planeta como um
todo, para as futuras gerações de todos os povos? Que capital
será empregado para essa restauração? Do mundo todo para o
mundo todo. O interesse é de todos.
Não é ético conformar-se com
o estado das coisas de hoje e desistir. Restaurar a Natureza é
um ato nobre de reconhecimento de nossos erros. E de
reconhecimento do valor de tudo que possa ser chave para o
desenvolvimento sustentável no planeta.
Princípio 7: Ética do
Intuitivo
É a ética que honra a
percepção humana. O princípio aqui é que as deliberações sobre
desenvolvimento sustentável devem honrar o intuitivo, o
subjetivo, os sentimentos e não só o que é técnico,
“científico”, objetivo. Nenhuma deliberação sobre
sustentabilidade deverá ficar tão somente no plano do
racional/intelectual, como se fosse uma ciência exata.
A premissa aqui é que temos
ainda muito a aprender com a Natureza ao se buscar a chave
para a sustentabilidade do desenvolvimento. Aqui a idéia não é
só preservar a Natureza. É ser parceira da Natureza e
descobrir junto com ela os segredos da sustentabilidade. É
desvelar o conhecimento essencial sobre a vida que está
contido na Natureza. O conhecimento essencial que podemos
aplicar nos sistemas inventados pelo ser humano. No momento em
que os sistemas artificialmente criados tiverem dentro de si a
“sabedoria sistêmica” presente na Natureza, teremos chegado à
real sustentabilidade.
Não é ético ficar no
reducionismo do técnico-científico. Há muito a descobrir nos
vazios do que já conseguimos provar cientificamente. Só
conseguiremos chegar a desvendá- los pela imaginação e pela
intuição.
Princípio 8: Ética do
Natural
É a ética que vem das leis
naturais, das leis universais. O princípio aqui é que só
alcançaremos uma real evolução sustentável no momento em que o
planeta como um todo se alinhar totalmente às leis universais.
O princípio aqui é que todas as deliberações que afetam a
sustentabilidade do desenvolvimento precisam se apoiar num
conhecimento profundo de tudo que rege a Natureza. Essas leis
naturais devem sempre prevalecer sobre as leis criadas pelo
ser humano, que normalmente são falíveis, mutáveis e muitas
vezes totalmente contrárias, em oposição às leis naturais.
A premissa aqui é que todos
que lidam com sustentabilidade – na verdade a Humanidade como
um todo – deveriam compreender como a Natureza opera, quais as
leis que a regem. É o que os grandes cientistas estão buscando
o tempo todo. Quando Einstein diz que tudo que ele quer é
entender como Deus pensa (todo o resto sendo algo pequeno,
trivial) é a isso que ele se refere: às leis universais que
talvez pudessem ser sintetizadas numa só equação matemática (é
onde a Ciência está chegando hoje, a chamada Teoria do Campo
Unificado ou a Teoria do Todo).
Não é ético justificar ações
que levam à não-sustentabilidade da evolução com base em leis
locais (de países específicos) e mesmo aquelas geradas por
organismos de âmbito mundial. No momento em que a vida no
planeta como um todo está em jogo, torna-se fundamental o
apoio em leis que sejam universais. Nosso grande desafio está
aí. Continuar em nossa busca pelo conhecimento sobre o todo,
sobre as leis da Natureza. E assegurar que todos que afetam a
sustentabilidade saibam como essas leis operam. Enquanto não
chegarmos lá, temos que ser humildes e reconhecer o que ainda
falta conhecermos. Assim, tenderemos a decidir com mais
cuidado e mais consciência.
Princípio 9: Ética da
Vida
É a ética inerente ao Grande
Jogo, o Jogo da Vida. O princípio aqui é que todas as
deliberações sobre a questão da sustentabilidade deverão
sempre levar em conta o contexto maior e o sistema que o
conjunto de jogos – o jogo econômico, o jogo político, o jogo
da competição global, o jogo das finanças etc. – representa. O
princípio aqui é o extremo cuidado a ser tomado,
principalmente ao levar em conta as irregularidades, as
falácias, as ilusões, as regras explícitas e tácitas desse
jogo em contraposição ao Grande Jogo da Vida, o Jogo Ideal que
é capaz de gerar a sustentabilidade com a qual todos sonhamos.
Nenhuma deliberação sobre sustentabilidade deverá ser levada a
efeito sem levar em conta o jogo dentro do qual as questões
estão localizadas e como elas serão afetadas (pelo jogo) e
como elas afetarão a dinâmica como um todo. Nenhuma
deliberação deverá, também, ser feita sem levar em conta o
outro jogo, o que transcende todos os outros: o Jogo da Vida
(aquele definido pelas leis universais).
A premissa aqui é que o Jogo
da Vida é aquele que coloca a vida acima de tudo. Acima do
econômico, acima do político, acima do financeiro, comercial
etc. A premissa aqui é que o desenvolvimento sustentável ideal
só será possível quando a vida prevalecer sobre todos os
outros valores criados pelos seres humanos. E quando formos
capazes de questionar pela raiz o próprio modo de vida,
padrões de consumo etc. que geram a não-sustentabilidade atual
de nosso “desenvolvimento” do planeta. Não é ético atuar no
jogo de ilusões onde o econômico de curto prazo prevalece até
sobre a saúde global das pessoas e de todas as formas de vida
no planeta. A premissa aqui é que a vida deve estar no centro
de tudo.
Princípio 10: Ética do
Bem Comum
É a ética do melhor para
todos, sem qualquer tipo de exclusão. O princípio aqui é a
busca da perfeição, a busca da Utopia Possível ao se buscar
desenvolvimento sustentável. O princípio é que na prática não
se pode deixar por menos, caso contrário haverá lacunas
através das quais a sustentabilidade per se se inviabiliza. Um
efetivo fazer acontecer exige sintonia de todos com esse
padrão de perfeição. É o propósito nobre que busca o melhor
para todos, que ajuda a dissolver as diferenças em interesses
e objetivos individuais, setoriais, regionais etc. Nenhuma
deliberação sobre sustentabilidade deverá ser levada adiante
se o propósito maior (o bem comum, o melhor para todos) não
estiver claro para todos. É algo essencial para o conceito de
sustentabilidade, que é sempre do todo
sistêmico/interconectado e nunca de parte dele.
A premissa aqui é que
sustentabilidade pressupõe cooperação plena e não competição
do tipo que prevalece na sociedade hoje. A única competição
positiva é aquela que vemos na Natureza, que é muito mais
próxima dos jogos de criança (que pressupõem um clima de
brincar juntos) do que de jogos de guerra, onde o outro é
visto como inimigo. A premissa também é que o excesso de
realismo e o cinismo que o acompanha é fatal para a geração de
desenvolvimento sustentável.
Não é ético reduzir, rebaixar
o nível de aspiração ao buscar sustentabilidade. Seria algo
incongruente. Em essência, desenvolvimento sustentável é a
própria busca da perfeição na sociedade como um todo.
Esta é minha contribuição
para os debates. Espero que ela venha, de alguma forma,
contribuir para a efetiva realização do mundo dos sonhos de
todos nós. Obrigado.
www.amana-key.com.br •
motomura@amana-key.com.br
*Oscar
Motomura, diretor geral da Amana-Key, empresa
especializada em inovações radicais em gestão.
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