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Empreendedorismo Sustentável
*Por Oscar Motomura
O empreendedor
Sempre que alguém fala sobre empreendedorismo, a imagem na
cabeça de muitos é de pessoas que criam suas próprias
empresas. Embora o conceito possa acomodar parcialmente essa
imagem, prefiro trabalhar com um significado diferente. Para
mim, empreendedorismo nada mais é do que a força do fazer
acontecer. O empreendedor seria, nessa concepção, a pessoa
capaz de gerar resultados efetivos em qualquer área da
atividade humana.
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Nessa definição, muitas donas de casa são empreendedoras: não
obstante grandes desafios e muitas dificuldades, fazem tudo
funcionar e a família evolui. Há porém donas de casa incapazes
de fazer acontecer. E os resultados obviamente são ruins…
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Há funcionários empreendedores. E outros que não são. Há até
chefes e executivos empreendedores e outros não… Isso tanto
nas empresas como em governos e até nas organizações da
sociedade civil.
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Há cidadãos empreendedores. Outros, não…
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Há crianças e jovens que fazem acontecer nos estudos e até nos
esportes e nas brincadeiras. E há também os que não conseguem…
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Há ainda as pessoas idosas que até os últimos dias fazem
acontecer. Outras, não…
É interessante contrastar a figura do empreendedor com uma
outra – muito comum em nossa sociedade: a das pessoas que
falam muito, criticam, têm idéias, boas até, mas param por aí…
Sequer parecem preocupadas com a efetiva implantação das
idéias que têm ou com a solução do que criticam. Às vezes até
têm essa preocupação, mas parecem considerar que esse é um
detalhe que cabe a outros cuidar… Como se fosse algo de “outro
departamento”…
Por outro lado, há empreendedores que fazem acontecer. Com
grande força. Mas fazem sem pensar. Sem pensar se há outras
coisas mais essenciais a fazer. Coisas que talvez sejam mais
úteis à sociedade e às futuras gerações. São pessoas que, se
pensassem melhor sobre como o todo funciona, não fariam o que
fazem. Estariam contribuindo de forma diferente. Talvez até de
forma muito diferente.
Há ainda empreendedores de grande talento que não só trabalham
em atividades pouco relevantes à sociedade mas até
prejudiciais a ela. São os que usam suas competências, por
exemplo, em ramos altamente poluentes ou fabricando produtos
que afetam a saúde das pessoas etc. O extremo desse espectro
está nas pessoas que atuam em ramos sérios, mas de forma
não-ética ou que até vêem no crime um “negócio” altamente
lucrativo.
Sustentabilidade
A sustentabilidade, por seu
lado, tem na sua base um jeito de viver capaz de assegurar
continuidade da vida para todos. Sustentabilidade
pressupõe solidariedade, uma forte consciência do coletivo e
ética em seu sentido mais elevado: a busca do bem comum.
Sustentabilidade significa – em
essência – um jeito de viver em seu todo que permite as
melhores condições de vida para todos (sem exceção, sem
qualquer tipo de exclusão) a cada momento.
Sustentabilidade significa vida
equilibrada hoje. Um modo de viver saudável em que
ninguém viva às expensas da vida de outros (sem situações em
que alguns têm, por exemplo, excesso de comida e outros nada
têm). Para os que nada têm, a vida não é sustentável.
Sustentabilidade significa
também um modo de vida no todo da sociedade que leve em conta
as futuras gerações.
De um lado, um modo de vida, que
já não seja sustentável no curto prazo, só leva à deterioração
a longo prazo (a não ser que seja algo estratégico, muito bem
planejado, que exija sacrifícios hoje para colheita de
benefícios para todos amanhã – algo dificílimo de ser feito,
porque os que têm muito hoje resistirão em abrir mão de suas
vantagens quando chegar a hora da colheita, no futuro).
Por outro lado, mesmo que o modo
de vida seja equilibrado hoje (o que não é o caso, obviamente)
pode-se estar “sacando contra o futuro” para assegurar esse
equilíbrio no curto prazo. E não teríamos sustentabilidade a
longo prazo…
O que significa então
“empreendedorismo sustentável”?
De forma muito simples,
significa um fazer acontecer que leve em conta o todo a curto,
médio e longo prazos. Por um ângulo, a expressão se contrapõe
ao conceito de “empreendedorismo egoísta”, dos que buscam
vantagens só para si e muitas vezes a qualquer custo. De
outro, a expressão se contrapõe ao conceito de
“empreendedorismo não-consciente”, aquele que produz um modo
de vida não-sustentável, um jeito de viver destrutivo que gera
desequilíbrios de toda natureza.
Neste ponto da reflexão, a
questão-chave parece óbvia: de que forma o empreendedorismo
sustentável pode ajudar a desenvolver o Brasil? Até que ponto
esse conceito é algo fundamental à “gestão estratégica” de
nosso país e das comunidades que o compõem?
O que mais precisamos em nosso
país é da força do fazer acontecer. Mas de um fazer acontecer
consciente. Para isso, primeiro precisamos transmutar a
energia desperdiçada (em críticas/análises/diagnósticos, em
atividades meio que burocratizam tudo ao nosso redor, em
processos para burlar as leis e buscar vantagens para poucos)
em energia que leve à sustentabilidade e ao bem comum. Em
segundo lugar, precisamos focar toda essa energia nas coisas
“certas”…
Em que aplicar essa força
empreendedora?
Apenas parar de usar a força do fazer acontecer em atividades
não-éticas e em atividades predatórias já seria um grande
progresso… Mas é preciso muito mais do que isso. É preciso
assegurar que a força empreendedora da sociedade seja muito
bem utilizada em prol do bem comum.
Mas como os empreendedores que
estão a fim de trabalhar para si e para o todo deveriam atuar?
Em essência. toda a força
empreendedora deveria ser aplicada para atender às
necessidades da sociedade. A melhor imagem aqui é a de
todas as pessoas da sociedade estarem aplicando sua força de
fazer acontecer para ajudar a atender o conjunto de
necessidades que existem na própria sociedade. E já vimos que
a força do fazer acontecer está presente em todos, da dona de
casa ao trabalhador, aos funcionários e executivos de
empresas, dos governos e da sociedade civil.
Atender necessidades sociais?
Não. Não somente. Necessidades num sentido amplo. No sentido
de todas as necessidades. Daí a expressão “necessidades
da sociedade”.
Ao pensarmos sobre as
necessidades totais da sociedade (que são muitas)
imediatamente deparamos com um enorme paradoxo. É o paradoxo
de termos de um lado muitas necessidades e de outro…
desemprego (ou seja, pessoas sem o que fazer). A existência
desse paradoxo é também um atestado de ineficácia em gestão.
Ineficácia de quem? De um lado, dos governos; de outro, dos
empresários que não criam empresas voltadas ao atendimento das
necessidades existentes (e preferem até trabalhar com o
supérfluo em mercados altamente congestionados). De outro,
ainda, de todas as pessoas que têm competência em fazer
acontecer e decidem não usá-la para o atendimento das
necessidades da sociedade (por achar que são de
responsabilidade do governo, de outras empresas e
instituições, enfim, “dos outros”).
Mas como, então, eliminar esse
paradoxo? O fundamental para eliminá-lo é colocar uma
megaequação para a sociedade como um todo:
"Como assegurar processos
criativos de gestão altamente integrativa (capaz de
incluir todos os membros da sociedade, sem qualquer
tipo de exclusão) que façam com que todas as necessidades da
sociedade sejam atendidas de forma altamente eficaz, contando
com o trabalho de todos os seus membros (ou seja, todos
ajudando a atender às necessidades, portanto, com zero de
‘desemprego’)?"
Na medida em que a sociedade
como um todo, em conjunto, buscar resolver essa equação de
forma inovadora/criativa estaremos dando verdadeiros saltos de
patamar em todos os campos (no social, no econômico etc.)
Gestão eficaz da sociedade,
portanto, significa a criação de um contexto em que todos na
sociedade estão sendo úteis para garantir o básico para todos
na sociedade, ou seja, que todas as necessidades estejam sendo
atendidas, o tempo todo, de forma sustentável.
E como resolver essa
megaequação?
Primeiro, ousar colocar essa equação na mesa para que a
sociedade como um todo possa usar sua capacidade criativa na
busca de soluções pragmáticas, inovadoras, de forma natural,
contínua, sustentável. Isso traria foco ao processo como um
todo.
Segundo, fazer – com a
participação da sociedade – um “mapeamento” completo das
necessidades da sociedade (das meganecessidades às menores).
Terceiro, criar um tipo de
“câmara de compensação” em que, coletivamente (e
criativamente), busca-se fazer com que a cada conjunto de
necessidades haja uma adequada alocação de energia humana. A
premissa aqui é que, se fizermos um bom trabalho nesta câmara
de compensação, não teremos ninguém parado (zero de
desemprego, zero de empreendedores/empresas fazendo coisas
inúteis, ou seja, não- vinculadas às necessidades que queremos
atender) e a sociedade como um todo estará evoluindo de forma
saudável em todos os setores e em todas as áreas. E assim por
diante.
Essa é a idéia central de um
tipo de gestão – pública e privada – muito diferente do que
vemos nas sociedades em geral.
No próximo artigo, estarei
refletindo sobre duas outras questões relacionadas à essência
desse novo tipo de gestão em relação àquele – já há muito
superado – que ainda prevalece hoje: 1) as causas prováveis
das distorções do sistema de gestão em uso hoje; 2) os novos
papéis que as várias instituições da sociedade – governo,
empresas, sociedade civil – deverão ter nesse novo tipo de
democracia participativa que precisamos urgentemente implantar
em nosso país.
www.amana-key.com.br •
motomura@amana-key.com.br
*Oscar
Motomura, diretor geral da Amana-Key, empresa
especializada em inovações radicais em gestão.
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